Dan Brown transformou-se em poucos anos em um dos escritores mais lidos do planeta e entrou para a seleta galeria de escritores sobre os quais posso afirmar que tenho todos os livros. Tá certo que não foram muitos livros até agora, mas a tendência é continuar consumindo avidamente tudo o que ele produzir.
Sua produção é culta, recheada de informações sobre história, misticismo, simbologia. Para cada livro, Dan Brown tem atrás de si uma equipe que lhe fornece material para compor suas obras. Para além da equipe, sua capacidade em amarrar situações históricas com ficção é muito impressionante. É dificil começar a ler qualquer livro dele e simplesmente colocar de lado por tédio. Simplesmente não dá, tamanha é a sua capacidade em nos manter vidrados e em atitude devorativa às páginas que produz. Gênio!
Tem quem não goste e diga que é subliteratura! Discordo solenemente e para essa prepotência acadêmica de alguns críticos e escritores com os cotovelos doloridos, repito apenas o velho bordão: uns escrevem, outros tornam-se críticos! A vida como ela é!
Ponto de Impacto, Fortaleza Digital, O Código Da Vinci, Anjos e Demônios e agora, O Símbolo Perdido! Em todos os seus livros, Dan Brown mexe com instituições sagradas e sacramentadas - com o perdão da reundância - bolindo com a fé cristã e a igreja católica bem como com os cânones da ciência moderna. E sempre incomoda a todos!
Agora, trata da Maçonaria. Vamos ver no que dá, mas nas primeiras páginas, o velho estilo alucinante se faz presente. E lá está também o seu (meu) herói, moderno Sherlock, Professor Robert Langdon, simbologista por profissão e decifrador de enigmas e conspirações internacionais, imortalizado na tela grande pelo versátil Tom Hanks nas filmagens de "O Código.. e Anjos e Demônios". Pós Holywood, é dificil imaginar o professor Langdon com outro semblante e porte que não seja o do Tom Hanks, incluindo o cabelo alisado! hehe!
Levem em consideração que minha paixão por Dan Brown e apreço pelo seu personagem central de três obras, tem muito a ver, claro, com o fato de eu ser historiador e gostar de fuçar em mitologias religiosas e tudo o que envolve fé e sua influência para a formação das sociedades antigas e modernas. Outra característica que me cativa, é a capacidade intensa de ironizar as nossas próprias crenças.
Reproduzo abaixo uma passagem da página 40 de "O Símbolo Perdido" - Ed. Sextante, 1ª edição - que por si só já rende um primor de debate. A cena se passa com Robert Langdon recordando-se de uma aula sobre a Francomaçonaria, em Harvard:
" - Professor Langdon - disse um rapaz de cabelos encaracolados na última fileira - se a Maçonaria não é uma sociedade secreta, nem uma empresa, nem uma religião, então o que é?
- Bem, se você perguntasse isso a um maçom, ele daria a seguinte definição: a Francomaçonaria é um sistema de moralidade envolto em alegoria e ilustrada por símbolos.
- Isso me parece um eufemismo para "seita de malucos".
- Malucos, você disse?
- É isso aí! - disse o aluno, levantandos-se - Sei muito bem o que eles fazem dentro desses prédios secretos! Rituais esquisitos à luz de velas, com caixões, forcas e crânios cheios de vinho para beber. Isso, sim, é maluquice!
Langdon correu os olhos pela sala.
- Alguém mais acha que isso é maluquice?
- Sim! - entoaram os alunos em coro.
Langdon deu suspiro fingido de tristeza.
- Que pena. Se isso é maluco demais para vocês, então sei que nunca vão querer entrar para a minha seita.
Um silêncio recaiu sobre a sala. A integrante da Associação de Alunas pareceu incomodada.
- O senhor faz parte de uma seita?
Langdon assentiu com a cabeça e baixou a voz até um sussuro conspiratório.
- Não contem para ninguém, mas, no dia em que o deus-sol Rá é venerado pelos pagãos, eu me ajoelho aos pés de um antigo instrumento de tortura e cosumo símbolos ritualísticos de sangue e carne.
A turma toda fez uma cara horrorizada
Langdon deu de ombros.
- E, se algum de vocês quiser se juntar a mim, vá à capela de Harvard no domingo, ajoelhe-se diante da cruz e faça a santa comunhão.
A sala continuou em silêncio.
Langdon deu uma piscadela
- Abram a mente, meus amigos. Todos nós temememos aquilo que foge à nossa compreensão."
Esse Dan Bronw não é genial? Essa passagem me recorda sempre minhas aulas sobre a invasão espanhola à América a partir de 1519, quando Fernão Cortez e seus homens foram confundidos com o retorno dos deuses Maias e Astecas. Sempre que conto a mitologia Maia/Asteca sobre seus deuses brancos, barbudos, vindos do mar, principalmente o deus Kukulcan ou Quetzlacoatl, que havia partido, mas marcado a data do retorno - coincidente com a chegada dos espanhóis no início do século XVI, algum aluno ou aluna faz um comentário do tipo "caramba, como eram burros!". Haha! Bingo! E eu, invariavelmente, digo a eles para refletirem sobre nossas crenças num cidadão que teria sido filho de deus, branco, cabeludo, barbudo, que foi morto na cruz, ressuscitou, subiu aos céus e vai voltar para separar os bons dos maus no dia do juizo final. Invariavelmente a cara de todos (as) nessa aula é sempre de espanto e de alguma frustração com as próprias crenças, tidas como avançadíssimas por quem as defende e propaga. Hehe!
Como ensina um pensamento antropológico, o que pensamos sobre a cultura alheia, diz mais sobre o nosso próprio comportamento do que sobre a cultura analisada.